Uma viragem nos municípios alentejanos

09/10/2009 at 10:12

Elisio-EstanqueElísio Estanque, Sociólogo

http://boasociedade.blogspot.com

Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

A influência do Partido Comunista no Alentejo tem raízes e justificações antigas. A região foi das que mais sofreram com a ditadura salazarista e daquelas onde as desigualdades foram mais flagrantes, antes do mais, devido à presença do latifúndio, que explorou e humilhou uma população miserável e sem acesso à propriedade da terra. O PCP foi, desde os anos 30 do século passado, um autêntico bastião que resistiu e conseguiu repor parte da dignidade da classe trabalhadora alentejana. O sofrimento social teve uma voz, que, apesar da apertada repressão, apontou o caminho e foi o exemplo de um povo capaz de se “levantar do chão” para defender a sua dignidade (o conhecido romance de José Saramago retrata magistralmente essa luta).

Porém, 35 anos depois da Reforma Agrária e de, em muitas autarquias, um período quase idêntico de gestão do PC, o que temos? Para além de alguns casos exemplares, mas excepcionais, de boa gestão, temos um conjunto de vilas e cidades extremamente envelhecidas, tranquilas e muito bonitinhas, isto é, bem preservadas do ponto de vista arquitectónico, mas cujo dinamismo económico, urbanístico, associativo e cívico deixam imenso a desejar.

Há  inúmeros casos de gestão do poder em que a realização de obras e projectos reivindicados pelas populações não se traduzem num efectivo desenvolvimento, com resultados palpáveis no progresso e bem-estar das populações, mas antes têm como principal objectivo o reforço das dependências e a perpetuação no poder local de quem desde há muito o controla. Castro Verde é um exemplo desses. Fez-se, ao longo das últimas décadas, um trabalho interessante de apoio social, de criação de infra-estruturas e no campo da iniciativa cultural, mas a sensação que se tem é que muito mais e melhor poderia ter sido conseguido se as realizações visassem uma verdadeira emancipação das comunidades, dos bairros e das associações.

A criação de serviços pode ser uma forma de criar ou ampliar a rede local de empregos, mas sem iniciativas e dinamismos empresariais mais amplos não se consegue acrescentar riqueza e promover o desenvolvimento. E por detrás dessa rede de empregos – directa ou indirectamente ligados à Câmara – vem a rede de dependências económicas e pessoais, de laços e relações de favorecimento, através dos quais o poder municipal se pode sustentar (e eternizar). Uma tal lógica contraria e limita a liberdade pessoal e política de cada um, restringindo a democracia e alimentando novas sujeições (o medo de falar contra quem domina) ao contrário da velha promessa de um poder local sempre vigiado e criticado pelo povo. Se a CDU (ou, melhor, o PCP) se consegue manter no poder durante três décadas em certos municípios é sobretudo devido a esse tipo de esquema. Ora, é exactamente por isso que se diz que a essência da democracia está na alternância e na rotatividade do poder.

Na actual campanha autárquica surgiu em Castro Verde uma candidatura, a de José Francisco Colaço, que rompe abertamente com essa situação. Luta por uma democracia de alta intensidade construída a partir de baixo. Tenta abrir um novo espaço plural de envolvimento dos cidadãos e das associações, apoiado no aprofundamento da cidadania e na projecção da vila para fora, procurando sair do circulo vicioso que está a amarrá-la e a impedi-la de progredir. Aposta na atracção de investimentos para criar emprego e fixar as populações, sobretudo os seus segmentos mais jovens e qualificadas, para seguir em frente. Para além do mais, este projecto (apesar de apoiado pelo PS) não está submetido a uma lógica partidária, tendo antes sido desenhado, desde início, de fora para dentro, e conta com muitos independentes e pessoas com trajectórias políticas variadas.

A viragem que ele procura protagonizar em Castro Verde é, no fundo, idêntica à viragem que precisamos de imprimir no Alentejo, ou seja, tornar esta região – pobre e envelhecida – em algo mais do que um produto exótico para turistas, ou um grande lar da terceira idade (por muito agradável que seja). Precisamos de um Alentejo vivo, empreendedor, desenvolvido e democrático para garantir o futuro dos nossos jovens e das gerações futuras.

(in Correio Alentejo)

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