Começar de pequenino

29/06/2009 at 00:07

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Quando há quase duas décadas esboçámos o primeiro gesto para desenhar a ideia do que viria a ser o nosso grupo coral e etnográfico infantil, estávamos longe de imaginar que o nosso sonho continha tanta oportunidade e probabilidade de vingar.

Lidávamos então, com uma descrença constante acerca do futuro do cante , forçado  a declinar, exausto pelo inexorável envelhecimento dos seus cantadores e pela nula renovação dos seus intérpretes. Os novos estavam , ainda mais arredios do que agora, de qualquer ligação afectiva ou efectiva à moda. Tinha-se chegado , nos meados da década de oitenta, ao nível mais baixo do crenço  pelo cante, quase se desprezava o nosso modo de cantar, ninguém queria vestir a pele da identidade, com uma tradição  sempre conotada com o trabalho duro e com o suor amargo.

feira2O  cante é filho dos campos e das searas . Cresceu no coração dos rurais e impregnou a alma alentejana, assumindo plenamente a sua poesia. Emprestou-lhe , em troca, a sua sonoridade e o ritmo que alonga as sílabas como ecos que se arrastam e procuram chegar ao fim das planícies. Cheira a estevas, lembra lavouras custosas e restolhos curtos.

Deste estigma fogem os aculturados, filhos e netos de ganhões , agora portadores de outras referencias.

Por isso, o nosso folclore , embora por nós muito querido em abstracto , é também de todos os outros, o menos assumido na realidade,  por razões de índole sócio-cultural inconfessáveis mas indisfarçáveis.

Se indagarmos a proveniência  sócio-económica e social dos membros dos ranchos folclóricos existentes no país, constata-se uma grande heterogeneidade de origens, ao passo que nos corais, nos nossos grupos , só milita ,por via de regra, gente com uma relação actual ou passada com o trabalho rural.

feira3Confrange-nos , por isso,  a circunstância de num  panorama como o actual, em que em termos laborais   o peso dos serviços  é tão grande  ,ser tão diminuto, em termos culturais, o envolvimento dos seus agentes na dinâmica  da interpretação da nossa expressão vocal mais autentica.

Era tempo de se exorcizarem os estigmas e os preconceitos, fazendo deslizar o cante para o campo da cultura, tornando a sua interpretação como factor de dignificação e de enriquecimento daqueles que podem fazê-lo.

Era já ocasião de se acabar com tanta rejeição à moda, e altura de se entender que por se ser cantador, não nos  caem os parentes na lama, qualquer que seja o nosso mister.

Pelo contrário, é um gesto de entendimento e de inteligência  já que nos interliga com referencias ,marcas e valores que importa abraçar em nome de um reforço da nossa identidade e da busca de um referencial colectivo que precisamos ter.

Mas para que se consiga tornear o actual torpor das mentes, julgamos que o caminho adequado è a criação de escolas do cante que tenham por embrião quaisquer associações e como seus dinamizadores actuais mestres da moda.

Foi assim que procedemos há quase duas décadas, quando em Castro Verde criámos os Carapinhas . Pela nossa escola já passaram centenas de crianças que agora, já adultos , alguns ainda cantam e outros poderão voltar a fazê-lo mais tarde. Mas, mesmo que nunca cheguem a integrar grupos corais, conforta-nos a certeza de que a sua atitude face à moda será sempre de grande proximidade e nunca de rejeição ou de aviltamento como por vezes, neste mesmo Alentejo, lamentamos observar.

( Texto de José Francisco Colaço Guerreiro publicado no jornal “ Diário do Alentejo” em 15/8/2003 )

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