Canto d’Alma

05/04/2009 at 00:01

canteAs letras, as palavras ditas, são o que menos importa. Por isso, neste cante, as sílabas derretem-se, prolongam-se desmedidas, só sustidas pelo fim do fôlego e no ar enleiam-se umas nas outras como silvas, num emaranhado onde se perde o sentido do sentir do poeta que escreveu a rima.

Apesar disso, todos acompanham vibrantes de emoção a sonoridade projectada pelas bocas que ora se escancaram como cocharros ora se cerram como frinchas, para soltar no devido tempo as vaias precisas, impostas, em cada momento da moda. cante-2

Assim é porque todos têm retidos na memória os versos ouvidos em repetições infinitas, em insistências incontáveis. Escalfam-se as gargantas num afã de teimosia , numa mística de paixão ,num querer incessante de fazer ecoar como preces ou ladainhas as mesmas melodias para sublimar agruras, infortúnios ou tristezas e só muito raramente para marcar estados de júbilo. Não precisam de explicitar os vocábulos, nem tornar perceptíveis os versos porque a grandiosidade das obras que interpretam está contida na sua sonoridade. É a melodia que tudo diz, é ela que tão bem sugere, elevando consigo os interpretes aos píncaros da emoção numa embriaguez que os tolda e os enlaça, formando magotes, desenhando esculturas de corpos numa fusão quase irreal.

Para tanto se abraçam, e o grupo em simultâneo arfeja como um fole, tomando o ar, retendo-o, expelindo-o depois , no estender manso das vaias . Precisam sentir em conjunto a sua doçura, deleitam-se com elas, depois elevam-se, finalmente, ao cimo do prazer quando os olhos se cerram ou alvejam e os corpos estremecem percorridos por um arrepio que das entranhas se solta.

cante3Este cantar precisa de grande empatia colectiva para se exprimir de modo conveniente à satisfação da sua dimensão verdadeira que a final , se aproxima do êxtase. Para tanto contribui o alto que como requinta espevita as emoções, conduzindo o coro para níveis de concentração e entrega que arrancam esses prazeres tão evidentes no reflexo dos rostos.

A moda começa sempre marcada com um verso trinado pela garganta aveludada de um ponto que rompe o silencio e a atenção expectante dos demais. Mete a emoção a caminho ,lado a lado com a melodia e vai desenhando lentamente o bordado do estilo esperado. O conjunto fica-se, já agarrado aos sons, já preso às requebras, mas ainda carente do impulso que depois o alto lhe empresta levantando a moda. É aí que todos se jogam como se tratasse de uma ajuda, de uma pega, de um trabalho, de uma força que tem de ser exercida à uma com gana e preceito. Mas acicatando as vozes e exacerbando as emoções o alto continua sempre a fazer-se ouvir, a sobrepor-se no tom ao eco grave dos baixos.

Então, fermenta nos peitos o viço deste canto d’cante5alma e os sons desprendidos já arrebatam e a emoção gerada já embriaga. Uma, outra e outra, vezes e modas sem fim, parecendo ecos do tempo ido a sacudir o estar presente. Quem canta delicia-se, quem ouve emociona-se sem saber porquê.

É este cante que esta terra escuta quando o demais pára e as gentes cadenciam a melancolia ao som dos seus passos, prosseguindo o rumo que a tradição sugere.

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