“Por Castro” com a tradição

20/01/2009 at 14:17

ssebastiao1

Ao redor de Castro , em lugares definidos por razões ocultas, erguem-se capelas, igrejinhas que resistem há muitos séculos ao esmeril do tempo e ao esquecimento dos devotos que as ergueram e branqueavam de cal pelo menos uma vez em cada ano, por ocasião da festa do patrono respectivo.

A escolha do sítio onde foram implantadas resulta, na maioria dos casos, da preexistência no mesmo lugar de altares ou simples práticas de culto a divindades que os povos de antanho reconheciam como suas protectoras, antes da vinda e acampamento dos cristianos.

Assim foi em S. Pedro das Cabeças, assim terá também sido em S.Martinho e quem sabe se o não foi igualmente em S. Sebastião, aqui à saída da vila, quando se toma a antiga estrada dos Geraldos, direito ao olival.

Certo é que em 1510, segundo as crónicas, esta ultima capela, feita de pedra e barro e com altar de taipa, coberta por telha vã e habitada por um só santo esculpido em pau, estavam já, ela e o morador a ceder ao peso dos anos, mostrando sinais evidentes da antiguidade de ambos.

Em cada vinte de Janeiro, lá acorria toda a vizinhança deste lugar para rezas e pagamento de promessas anuais feitas ao santo mártir. Fitas, azeite e depois velas de muitos tamanhos e feitios, lá ficavam em acção de graças pelos benefícios vindos através das suplicas . Muitos fregueses, fazem freguesia e a freguesia encanta os comerciantes que à margem da fé, mas aproveitando-se dela, lá íam também para armar a esparrela .

Deste jeito ou doutro idêntico ,nasceu naquele lugar um arraial, um mercado, uma feira.

Lugar de fé e de venda.

ssebastiao2

Arredia da vila, a meia ladeira de um cerro, em sítio descampado como também convinha para o maior negócio que ali se fazia.
Porcos aos milhares, gordos com a bolota de todos os montados das redondezas, para ali convergiam e aguardavam que os negociantes os comprassem às varas.

Ao redor do santo estendia-se um mar de lombos pretos, deitados, arriados pelo peso das arrobas de carne postas na engorda e pelo cansaço das léguas andadas no caminho. No ar , misturava-se um cheiro intenso com um grunhido ensurdecedor. Os porcariços andavam numa fona, despejando gorpelhas de palha e saquilhadas de cevada no chão. Depois corriam com os caldeirões para as bicas para encherem os maceirões de água que não aturavam .

É tempo de matança e também a gente das redondezas mais desafogada vinha ao santo comprar o que no chiqueiro não tinha. Depois lá íam a caminho de casa atrás de um porco, seguro por uma corda laçada na pata.
Mas nesta ocasião, é tempo de plantio de arvoredo. Tudo o que numa horta convém ter, aqui ainda se encontra. Também para os quintais ,as laranjeiras e os limoeiros é sempre bom ter. Para dispôr nas leiras, braçados de cebolinho. Para a vinha ou para pôr num alegrete, vende-se o bacelo de qualidade.

Nesta ocasião, vendiam-se calendários, almanaques, bordas d’água e pagelas com décimas feitas a propósito da última desgraça ou de alguma marotice intemporal.

À abrigada da igrejinha, estendiam-se toldos onde várias carroças serviam de venda e despejavam garrafões e garrafões do novo. Depois à vinda, ao levantar da feira, desfilavam bebedeiras de ladeira abaixo, homens sem negócio que íam de gangão e algibeiras vazias.

Mas neste dia come-se pau roxo.

Vende-se aqui e no Santo Amaro, em Almodôvar, não vi noutra banda.
Cenouras grandes e tintas como a beterraba. Eram aos montes, agora são contrabando, mas mesmo assim, a feira ainda é delas.

Compra-se uma ou duas, por graça. Os moços já não gostam e os mais velhos não têm dentes que as rilhem. Nesta maré era o petisco corrente nas tabernas. Em casa comiam-se cruas, às rodelas, com o mesmo jeito dos rábanos e havia quem as cozesse e temperasse com vinagre. Guardavam-se também para o tarde em frasquinhos como os picles.
O “santo”, “feira de S.Sebastião” ou “feira do pau roxo” porque antecede o Entrudo, faz em Castro a abertura desta quadra.

A moçada aproveitava para fazer o abastecimento de estalinhos, bombas, bichaninhas, pedorreiras, serpentinas e papelinhos.

Compravam-se bisnagas de água e com as bicas mesmo ali à mão, mesmo que não chovesse, voltavam da feira como pintos.

De casa muitas vezes já se traziam bexigas de porco ,sopradas e atadas com linha de meia. Com um alfinete na ponta, penduravam-se à socapa nas costas dos passantes. Eram os “rabos”. Também se faziam de papel recortado. E punham-se escritos da mesma maneira. Tinha graça. Toda a gente ria.

Embora sem porcos, sem tanta promessa nem tanto pau roxo, o “santo” ainda é hoje um mercado de tradição onde lado a lado com a venda de cassetes se compram chocalhos e coleiras para o gado, vendem-se farturas mas também se encontra o que faz falta para plantar na horta.

Entry filed under: 1. Tags: .

INE: 1.085.435 empresas facturaram 331,6 mil M€ em 2006 Destaque da Revista Cultos


Calendário

Janeiro 2009
M T W T F S S
    Fev »
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031  

Most Recent Posts


%d bloggers like this: